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Pioneiro Luiz Gotardo na sede da ACLEJU com o exemplar do livro Histórias de Jussara na Visão de Pioneiros, com o seu texto A Cortina de Fumaça
Foto: Pioneiro Luiz Gotardo na sede da ACLEJU com o exemplar do livro
Histórias de Jussara na Visão de Pioneiros, com o seu texto "A Cortina de Fumaça".


A Cortina de Fumaça - Relato do pioneiro Luiz Gotardo
Segunda-feira, 18/01/2016

Em 1953, com dezoito de idade, vindo do município de Nova Esperança, cheguei em Jussara em companhia de meu irmão, de meu cunhado e do irmão dele, portanto, num grupo de quatro desbravadores e nos instalamos na Estrada Velha para Maringá.

A princípio, nos instalamos embaixo de lonas, lavávamos a nossa própria roupa no Rio Encontros e fazíamos a nossa própria comida, o que chamávamos de “queimar lata”. Pelo menos por três meses nossa casa foi sob lona até construir nossa casa. Então, no início, derrubávamos o mato de propriedade de terceiros, de sol a sol, de domingo a domingo. Logo depois, com a profissão de carpinteiros que trouxemos na bagagem começamos a construir casas para terceiros, ou seja, para os proprietários poderem trazer suas famílias.

Era muito comum negociar as toras em troca das madeiras, como na serraria de Lino Parker, para construção das casas, na maioria delas de 42 metros, de chão batido. Algumas, com piso de tábua nos outros cômodos exceto cozinha que ficava mesmo no chão, pelo menos por uns tempos. Algumas eram cobertas com tabuinhas, pois as telhas de Barra Bonita, Ourinhos ou Cambará nem todos tinham recursos para comprá-las.

É bom lembrar que, quando falamos em Jussara dá impressão de uma cidade pronta para receber novos moradores. Na época, longe disso. Quando cheguei em Jussara tinha uma pequena venda, onde hoje é a esquina da Rua Alvares Cabral com a Av. Napoleão Moreira; nessa venda tinham as principais necessidades, como jabá, carne seca, machado, traçador, serrote, entre outras ferramentas e alimentações.

Quando tinha necessidade, vínhamos para o patrimônio a pé, pela picada da linha férrea ainda sem trilhos, pois eram apenas quatro quilômetros de onde estávamos até aqui o patrimônio, que não tinha praticamente nada ainda; as ruas eram apenas picadas cheias de tocos no meio da mata. Depois de uns tempos começamos a vir de carroça, mas aí o município já estava bem explorado, colonizado.

Três anos depois de estar em Jussara me tornei agricultor para formar lavoura de café numa propriedade como meeiro. Nos primeiros três anos, até o café se formar, não se pagavam nada de arrendamento, e tudo que produzia tinha direito integralmente, como arroz, feijão, milho, plantados entre as ruas do café. Depois de três anos o contrato era meio a meio.

A mata em toda região do município veio abaixo numa velocidade estrondosa. O céu ficava turvo pela fumaça que encobria o sol devido às queimadas. Entre os anos de 1951 a 1955 praticamente toda a mata Jussarense caiu por terra. Num período curto de tempo, Jussara se transformou em município e a cidade já tinha prefeito, comércios de secos e molhados ativos, lojas de tecidos, bares, hotéis, serrarias, cafeeiras e escolas, entre outros, como restaurantes e pensões.

O que se viu nesse período era um grande número de gente chegando de todas as partes do Brasil. A rapidez com que se deu o desmatamento foi devida aos empreiteiros “gatos”, ou seja, esses gatos contratavam peões em grupo de 30, 40, 50 homens ou mais, para a derrubada da mata até ao trabalho de descoivarar (serviços de limpeza da terra de troncos, galhos e ramagens em coivara (pilha de galhadas e tronco que não se queimaram inteiramente), resultante da queimada anterior), a pedido do proprietário. A maioria do desmatamento fora feito desta forma. Assim, uma propriedade estava toda desmatada em apenas 30 dias.

O desmatamento de uma propriedade era feito de acordo com a pressa do proprietário. Quanto mais pressa, mais peões. Nesse período não se tinha preocupações com doenças, pois como o propósito era o desmatamento, não se trazia inicialmente mulheres ou crianças. E homens todos formados e fortes aguentavam mais as intempéries.

Outra característica importante da formação de Jussara, talvez também em outras regiões foi às descendências de italianos, japoneses e espanhóis, entre outras miscigenação que muito contribuíram para a formação do município.

Nota do Editor

“A colonizadora dividiu a área de Jussara em três Glebas de Terras, que foram denominadas de: ‘Gleba Patrimônio Jussara Zona Ivaí' a Leste; ‘Gleba Cananeia' ao Sul; e ‘Gleba Ligeiro' a Oeste”, (Jussara Além do Ivaí, pág. 115).

A missão assídua de desbravar coube aos peões ou ‘gatos', como está comprovado em livro: “Quando os peões ou mesmo o ‘gato' da turma retornavam a seu aposento, depois de um longo e cansativo dia de trabalho, iam ao córrego ou a mina, tomavam banho, trocavam suas roupas, ou às vezes, ficavam apenas de calção, quando muito quente, nisso a janta já estava pronta, porque as tarefas eram divididas durante a semana, revezavam na cozinha, no preparo do almoço e do jantar”, (Jussara Além do Ivaí, pág. 165).

PS. O senhor Luiz Gotardo faleceu em 25 de fevereiro de 2022. Nossos sentimentos a esse grande cidadão jussarense que contiibuiu muito para o desenvolvimento do município. Eternamente, descanse em paz!


Livro Histórias de Jussara na Visão de Pioneiros  | Clube de Autores | Acleju

O texto acima está no livro "Histórias de Jussara na Visão de Pioneiros"
(Ed. Clube de Autores, Pág. 103, 2016)


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